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03/11/2008 09:59
Era verão e as tardes quentes eram prenúncio da chuva que não tardaria cair. Olavo sentava na varanda todos os dias, e todos os dias, esperava aquele postal que nunca chegava. Passava dias,semanas,meses, até que passou um ano desde a partida de Anita, a moça dos olhos pretos.
O namoro não era aprovado, e por isso, o pai de Anita, militar reformado, dono de fazendo de gado, resolvera que melhor seria que a filha, ainda que vivesse triste, virasse freira, a casar-se com um "pé rapado". Com o coração ardendo no mais silencioso amor, a moça foi posta na charrete, e o pai, barbudo e sem coração, fez um aceno seco com um lenço amassado que guardava no bolso. O lenço nunca era usado, pois o homem era frio demais para chorar, e mal educado demais para o oferecer a qualquer dama que chorasse.Olavo, da varanda de sua casa, acompanhava a charrete desaparecer na estrada de terra, e entre soluços e lágrimas furtivas, dava adeus ao nada. Acenava ao nada,e Anita dentro de seu recolhimento,recebia o aceno do amado, como um vento que soprava em seu rosto.
"Prometo-lhe que assim que chegar,lhe escrevo, amor meu. Não demoro a me instalar na casa de uma tia solteirona, e dou logo um jeito de escrever-lhe." Com um sorriso mudo, Olavo olhou para o chão, beijou a mão da moça que agora tremia a dor da separação, e voltou-se para seu caminho. Anita ainda permaneceu alguns minutos parada,e acompanhou o doce jovem sumir na estrada.
Passaram-se anos e Olavo, naquela ânsia ainda fresca, esperava todos os dias por notícias que o mensageiro, em sua ingênua crueldade, não trazia. Quando, por acaso, encontrava com o fazendeiro de olhar duro, Olavo tratava de abaixar a cabeça e seguir seu caminho. Chegou a pensar em perguntar-lhe da filha, mas acho que seria afronta demais,e por isso, foi deixando que o tempo passasse, e que ficasse somente a lembrança de um amor antigo.
Olavo nunca casou-se. A carta nunca chegou. Ainda velho, já sem a mãe e sem o irmão, Olavo sentava-se à varanda todos os dias. Chuvas vinham, iam, e lá estava ele, em sua resignada esperança. Anita nunca voltou ou escreveu-lhe.
enviada por Bala de Goma
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